segunda-feira, 14 de maio de 2018

O PODER E A FAIXA DE VINIL



O PODER E A FAIXA DE VINIL


Transcrever uma passagem reservada em minha memória, trazendo o que é individual para o coletivo, não é tarefa fácil, pois preciso manter a serenidade para não transformar a história de um fato em mero desabafo. Mas essa é uma das minhas possibilidades de revelar a íntima relação entre o Poder e o sonho quase interrompido de transformar a realidade de muitas crianças em situação de vulnerabilidade. Minhas recordações de vivência na Caserna sempre retomam o quanto uma simples faixa de boas-vindas, confeccionada em lona de vinil, pode mexer com diferentes comportamentos e atitudes. Da alegria de um grupo por ter conseguido confeccionar um símbolo de acolhimento; da vaidade e arrogância de um homem que deveria ser um líder, mas que demonstrou ser o detentor de “autoridade”; e, a força e honra de um outro homem, líder nato, que ao assumir responsabilidade com dignidade salvou os “oprimidos” das garras de um Comandante sem o menor senso de alteridade e empatia. Um Comandante recluso na mística de formação de Guerra, jamais aceitaria a proposta de uma capacitação para atuação preventiva, pedagogicamente o marco diferencial do modelo de polícia vigente.
Creio que era o I Curso de Formação de Instrutores do Programa Educacional de Resistência às Drogas e Violência (PROERD) após sua reedição. O ano 2000 e o CFAP – 1ª CIA o cenário.
O Curso acontecia para atender demanda de reestruturação do PROERD, após sua interrupção por cinco anos. Tudo era difícil, o filho ainda era feio e quase nenhum apoio recebia. A faixa de vinil com a marca do PROERD e o símbolo da GRP expressavam as boas vindas aos novos Instrutores. A faixa foi doada pelo CEL REF Almeida, homem de fibra, que vislumbrava que nossos ideais superavam todos os óbices. Hoje posso agradecê-lo in memoriam!
As instalações do CFAP não eram adequadas ao processo de formação do Programa, mas era o que se tinha. Não que nosso modelo pedagógico fosse melhor, mas o acolhimento dos futuros Instrutores requeria nossa especial atenção, pois durante o período de curso trabalharíamos com a afetividade, aquela afetividade proposta por Wallon. O aprendizado significativo somado à acolhida estruturada ditaria o tom daquela capacitação. Era lapidar o bruto para se obter a beleza da joia rara.
E mãos à obra! Arranjamos uma escada e começamos a esticar a faixa, que seria amarrada com barbante ao madeiramento do teto da sala de aula (nenhum dano seria causado), a faixa ficaria fixada na lateral da sala de aula que serviria de sala principal (a que reúne o grande grupo em uma formação no modelo PROERD de mentoria), quatro outras salas deveriam ser usadas para a composição das cinco equipes de trabalho.
A faixa, antes mesmo de fixada temporariamente, já nos passava a sensação de alegria e aquele recomeço faria justiça aos desdobramentos de uma Resolução impensada de 1995, que extinguira o PROERD, na PMERJ.
Feita a primeira amarração, movia a escada para o lado oposto quando um grito assustador paralisou a mim e toda minha equipe: “com ordem de quem vocês estão colocando isso aí? E, continuou gritando: “eu não autorizei nada, tirem isso agora!... sou o comandante e não estou sabendo desse negócio aí!...”
Fiquei estática, a voz sufocada, meu olhar vago só conseguia perceber o Oficial CMT batendo freneticamente com uma varinha na mão (não posso afirmar que seria um Bastão de Comando, pois o mesmo é prerrogativa de Oficial General), mas era algo parecido carregado da simbologia de Poder, de Autoridade. Enquanto gritava e batia na mão sua sede de Poder era patética, minha sensação de impotência também patética. Questionava em minha mente o que estariam sentindo os Mentores, como um Comandante pode demonstrar “força” contra quem só queria um espaço para cumprir ordens de alguém superior ao mesmo?
A equipe cabisbaixa, eu estagnada, entrando quase que num estado de catatonia ante tamanha agressão. A medição do Poder e da Autoridade contra a fragilidade daqueles que lutavam aguerridamente por um ideal me parecia contraditório.
Ainda presa ao conflito instado, ouvi quando o nosso “Salvador” fez a intervenção: “EU autorizei Comandante!”, era a voz assertiva daquele que se revelou digno de toda nossa reverência, respeito e admiração. Matou no peito, nos devolveu a vontade de continuar a missão! O então CAP Luciano Souza honrou a farda, honrou seu compromisso de CMT daquela 1ª CIA e assumiu toda responsabilidade pela colocação temporária de uma faixa de vinil que carreava a significação de uma acolhida motivadora para tantos outros policiais que ali chegariam para aprender e apreender novos saberes direcionados ao trato com crianças. Não lhes caberia mais uma prática permeada pela mística truculenta que ainda vigorava apesar de estarmos experenciando uma nova Era ditada na PMERJ, alinhada com modernas estratégias de policiamento preventivo.
Nossa! Quanta diferença, quanta honra, dignidade, solidariedade, visão de futuro cabia no coração de Luciano Souza, Oficial que até hoje chamo de “O Nosso Salvador”!
Nossa faixa, tão simples, foi finalmente esticada, os alunos chegados sentiram-se acolhidos e o Curso foi concluído com êxito, apesar de tantos pontos de desequilíbrio, decorrentes de intervenções maldosas. Talvez aí esteja a diferença entre formações do tempo do “vamos fazer acontecer” (mesmo sem recursos financeiros e enfrentando as resistências) para as que são realizadas com aportes oriundos de certas “parcerias”.
Acredito que foi esse dia e a atitude do então CAP Luciano Souza que me impulsionaram ao primeiro passo em direção a conquista de um espaço para o PROERD, onde na Ordem do Dia seria sempre valorizado o compromisso com a Ética, a Educação, a Autoridade com Afetividade e Assertividade.
Aprendi com o Oficial Comandante que não somos, apenas estamos no exercício de uma função de Comando e que o Poder não pode ser travestido de vaidade, agressividade e estupidez!
E as coisas que circulam minha mente dão uma paradinha trazendo à baila a célebre frase: “Profissionais não se improvisam e o mando deve caber ao mais digno”.
LOOS, T.

ENTRE O VULCABRAS E O SCARPIN - UMA DECISÃO PIONEIRA



PMERJ: 209 ANOS “SERVINDO E PROTEGENDO”

Hoje, 13 de maio de 2018, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) comemora 209 anos “Servindo e Protegendo”. Presto minha continência e manifesto meu amor por ela.
Apesar de nossa Sociedade parecer nos ignorar, vale resgatar momentos incríveis de mulheres pioneiras que há 36 anos sentem orgulho de feitos que circulam minha mente e que tenho a honra de compartilhar como uma maneira de homenagear essa Instituição que me ensinou a ser crítica, não aceitar com facilidade proposições de uma cultura até então pautada na vivência masculina.   

ENTRE O VULCABRAS E O SCARPIN: UMA DECISÃO PIONEIRA
Sapatos o que me trazem à memória? Jovens mulheres que, enfrentando o pioneirismo de uma área antes explorada apenas por homens, buscavam o espaço, conquistavam aos poucos a mudança da cultura masculina e que desejavam cumprir a missão sem perder de vista a essência do “ser mulher”.
O orgulho de ser pioneira brotava e explodia em cada uma com a proximidade do nosso primeiro Desfile Militar de 7 de setembro. Nossa farda rendeu muitas visitas do alfaiate, tira medidas, experimenta, recorta, aumenta e tudo isso supervisionado por duas madrinhas – Dona Jussara e Dona Edite.
Já às vésperas do desfile chegaram os sapatos. Entramos em forma, cada Pelotão com seus Comandantes e fomos direcionadas ao almoxarifado e a cada entrega os Pelotões se desfaziam e assim surgia um burburinho, olhares de decepção, uma mistura de sentimentos que só fazia aumentar o barulho... Era o momento de não sufocar nossas vozes, precisávamos demonstrar que o sapato não agradava, não combinava com nossa expectativa de glamour, de elegância. A falta de tato com as chamadas “coisas de mulher” fizeram nossos Mestres comprarem o horroroso VULCABRAS, com cadarço e sem um pingo de bom gosto!
O burburinho aumentando a cada entrega, nossos Comandantes argumentavam, diziam da importância do conforto e a segurança de ser um sapato amarrado. Mas nada nos convencia, o layout da farda ficaria com um tom muito masculinizado e não queríamos assim. Nossa opção era o clássico scarpin.
Precisávamos decidir com urgência tendo em vista a proximidade da data do Desfile! Óh  dúvida cruel... Ficamos entre o Vulcabrás com cadarço e o clássico Scarpin!



                                                                                                 
Apesar de todas as orientações, fizemos até pirraça, mas é claro que escolhemos o Scarpin.
E lá fomos nós! Saímos do CFAP ainda na madrugada e às 05:00h já estávamos no local de concentração da tropa, entrada em forma na posição de Desfile e a longa espera.
Em pouco tempo começamos a sentir as consequências de nossa escolha! Mas a garra mantida, afinal era nossa primeira apresentação em público. A responsabilidade de fazer acontecer e fazer bonito nos dava força!
Desfile iniciado, hora de fazer valer tudo que tínhamos aprendido com nossos Mestres. Em cada coração o firme propósito de marcar para sempre aquele momento e o bumbo anunciava que era chegada a hora de acertar o passo.
Logo no início começamos a sentir o peso da decisão: sapatos que saiam do pé e voavam, colegas pegavam e os entregavam as suas donas, retomadas várias vezes ao lugar na formação por conta do “scarpin” que massacrava, que apertava, que engolia nossos pés e maltratava nossos sonhos. Parecia o caos, mas a luta seguia em frente e não nos faltou determinação.
Memória ímpar, pois que tomadas pela emoção de representar nossa Corporação e o pioneirismo da Turma Maria Quitéria, lembro que encontramos nosso jeitinho de acertar o pé no bumbo sem perder os sapatos, ou melhor, sem perder a elegância.
Passamos com garbo e do Palanque as autoridades aplaudiram, o público nos saudando com sorrisos, curiosidade e alegria contagiante. E nós éramos pura emoção!
Fomos com tudo! Mulheres de fibra, pioneiras, guerreiras! O toque feminino que iluminava aquele Desfile.


Terminado o desfile, poucos souberam ou testemunharam o que um scarpin pode fazer. Do glamour, elegância de um clássico, nos restou pés que sangravam, bolhas imensas e a dor suportável de quem cumprira a missão com mérito!
Em 2012, a PMERJ comemorou os 30 anos da presença feminina em seus quadros, nos homenageando com a forte imagem de um Desfile Militar que ficou para sempre na História!

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*      Por: Tania Loos
*      Colaboradoras: Margarete Angel e Marisa Franca



domingo, 1 de abril de 2018

LOCOMOTIVA 36 MIL E A REPÚBLICA DE SAIAS



Silêncio quebrado... A Locomotiva 36 mil ecoou seu apito me trazendo de volta a responsabilidade de transformar lembranças individuais em memória coletiva.
Confesso que esse é o apito que mistura a vibração harmônica da esperança de que a partida é também tempo de reencontros. Hoje reforço a tradição do dizer que “missão dada é missão cumprida”, e, que legado é a herança apenas de quem, sem vaidade ou arrogância, acreditou que eu poderia transformar em lição para o mundo a vivência e convivência em uma “República de Saias”.
Na simplicidade das palavras de uma grande Guerreira fica o registro para a eternidade! Obrigada Inez, por acreditar na seriedade do meu trabalho, no meu compromisso de preservar sua Memória e que juntando-se às Guerreiras 36 mil que partiram antes você esteja na LUZ... não há mais dor, não há mais tristeza e a nós que ainda estamos por aqui resta o amor e a saudade!
Com muita honra e agradecida ao amigo Vagner compartilho essa passagem da Locomotiva 36 mil que, no silêncio desta noite de lua cheia, faz a parada final. Não há concessão, não haverá novos motivos. Que seja assim por respeito e por honra!

A REPÚBLICA DE SAIAS

Durante os sete meses de curso no CFAP comecei a ter uma ideia do que seria a turma trinta e seis mil, pelo jeito de ser de cada uma sabia que esse vínculo nunca seria desfeito, como por exemplo, quando a Rosane Leite era retirada de forma pelo SGT IRIS para que ela me levasse até o BANERJ de Madureira para receber pagamento, em se tratando de ROSANE é claro que do banco me levou para conhecer o cinema de Madureira e me ensinou a dar “carteirada” com a fantasminha.
Ao fim do curso, fui classificada no Segundo Batalhão, e passei a morar no alojamento, era a única vinda de tão longe (Campos dos Goitacazes) e na época não me deixaram ficar no Oitavo Batalhão, pois teria que fazer adaptações, a vida no alojamento era solitária, algumas percebiam e não mediam esforços para me ajudar, como certa vez em que fiz um reflexo no cabelo, ao assumir o serviço na cabine, chegou o SGT e me entregou uma FI, a fim de informar porque mudei as características da minha identificação e que me apresentasse no outro dia pela manhã com o cabelo da identificação, fiquei arrasada, pois estava me sentindo linda. MARIANE me levou pra casa dela e tingiu os meus cabelos, bem como a SOLANGE GARCIA, que me dedicou tanto carinho, às vezes dormindo no
alojamento para que eu não ficasse sozinha ou me levando para sua casa, onde D. CATARINA e Seu LÁZARO me tratavam com muito afeto.
Fui convidada a fazer parte da quitinete alugada por Policiais Femininas do Décimo Nono Batalhão que era usada para troca de roupa, o que pra elas era armário, pra mim era um lar, como só podia comprar uma geladeira e um fogão, elas completaram com televisão e armários, lá confirmei o tal vínculo, dividíamos nossas angústias, tristezas e alegrias de meninas que se colocaram diante de um desafio, enfrentando pessoas que eram contra o ingresso da mulher na PM e torciam para que a experiência desse errado, mas estávamos lá, firmes e fortes, o que interessava era o presente.
A população da Kit foi crescendo, fui transferida para o Décimo Nono Batalhão, pois o meu novo lar ficava na Rua Siqueira Campos, 143 em Copacabana, brincávamos muito, como certa vez em que a ANA FAUSTO me colocou em um vestido justo e um salto alto para irmos ao samba, após me arrumar, ela rolava no chão de tanto rir, bem como quando o meu esposo, na época pretendente, que eu não sabia quem era (ainda não o tinha visto) colocava bilhetes embaixo da porta com solicitação de namoro, que seu nome era VAGNER e que tinha me visto de serviço no Maracanã, ela sempre lia antes de mim e me sacaneava depois. Íamos a praia, bares, samba, a maioria sempre juntas, na hora de colocarmos a farda para entrar em forma era um atropelo na Kit, pois a janela dava para o pátio do quartel e escutávamos a corneta avisando que estávamos atrasadas. Enfim, uma convivência e experiência única, mas dois anos, sabe aquele cara dos bilhetes, pois é estava apaixonada e resolvi que era a hora de seguir meu rumo, formar minha própria família, novamente veio a solidariedade, a CAMASSARY conversou com sua mãe, que estava a fim de se mudar e ela me alugou o apartamento por uma quantia irrisória, me casei e surgiu assim a maior barriga do batalhão, família de sangue que Deus me deu pra cuidar.
A passagem das Guerreiras que já se foram desta vida deixou para nós um legado, aquele que tentávamos passar umas para outras na Kit. Que não deveríamos desistir, que quando reunimos forças, somos vencedoras, ANA FAUSTO morreu lutando quando se atracou com seu assassino, MARÍLIA, mulher de fibra que não se deixou render pela sociedade e fez valer a sua própria escolha, LOURDES que voou como uma borboleta para outro jardim, escrito pela própria no dia da sua partida, IZABEL, que várias vezes presenciei gargalhando contra o seu câncer, contando a aventura de forma alegre do dia em que foi procurar um maiô com enchimento no seio, pois havia retirado o seu e quando ela entrou na igreja para se casar, careca com seu lindo turbante e um largo sorriso no rosto, não era máscara, era atitude de Guerreira, super resolvida, ANA MARIA, que após cumprir sua
missão com serenidade na Corporação se foi enquanto caminhava. Enfim, esta é a nossa herança.
AS COMPONENTES DA REPÚBLICA DE SAIAS: INEZ, ANA FAUSTO, MARGARETH, MAGALY, ALZINETE SANTOS, MARY, MARIANE, PACARÁ, ELÍRDES e LENAWENE.”
(Por Inez, em 2016)
*12/04/1960
+21/02/2018

quinta-feira, 8 de maio de 2014

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terça-feira, 8 de abril de 2014